Quando falamos em Hashimoto e hipotireoidismo, a maioria das pessoas pensa imediatamente em hormônios tireoidianos, genética ou autoimunidade.
Mas a ciência moderna tem mostrado que diversos fatores ambientais também podem influenciar a saúde da tireoide. Entre eles está uma substância presente diariamente na vida de milhões de pessoas: o flúor.
O flúor é amplamente utilizado na prevenção de cáries e está presente na água tratada, cremes dentais, enxaguantes bucais e diversos alimentos industrializados.
Mas será que ele pode interferir na função da tireoide? A resposta é mais complexa do que um simples sim ou não.
A relação entre flúor e iodo
Para entender essa discussão, precisamos compreender a importância do iodo. O iodo é um mineral essencial para a produção dos hormônios T4 (tiroxina) e T3 (triiodotironina). Sem iodo adequado, a tireoide não consegue fabricar seus hormônios de forma eficiente.
O flúor pertence ao mesmo grupo químico do iodo na tabela periódica: os chamados halogênios. Há décadas pesquisadores investigam se exposições elevadas ao flúor poderiam interferir em mecanismos relacionados à captação e utilização do iodo pela glândula tireoide.
Estudos experimentais sugerem que o flúor pode afetar o transportador sódio-iodo (NIS), proteína responsável pela entrada do iodo nas células tireoidianas. A literatura também descreve possíveis efeitos sobre:
- Captação de iodo
- Síntese hormonal
- Conversão hormonal
- Estresse oxidativo celular
- Regulação genética da função tireoidiana
Isso não significa que qualquer contato com flúor cause hipotireoidismo. Significa que, em determinadas condições, a carga total de exposição pode se tornar clinicamente relevante.
O que mostram os principais estudos?
Estudo 1 — a maior metanálise publicada até o momento
Em 2024, Iamandii e colaboradores publicaram uma revisão sistemática com metanálise dose-resposta avaliando estudos sobre populações expostas a diferentes níveis de flúor, reunindo 24 estudos com dados de função tireoidiana.
Os autores observaram associação entre níveis mais elevados de exposição ao flúor e aumento dos níveis de TSH, com efeitos mais evidentes quando a concentração de flúor na água ultrapassava aproximadamente 2 a 2,5 mg/L. Crianças pareceram apresentar maior sensibilidade aos efeitos tireoidianos.
A revisão concluiu que exposições elevadas ao flúor podem estar associadas a alterações da função tireoidiana, embora a magnitude do efeito varie entre as populações estudadas.
Estudo 2 — revisão sistemática publicada no PLOS ONE
Em 2024, Ferreira e colaboradores realizaram uma revisão sistemática especificamente focada na relação entre exposição ao flúor e alterações tireoidianas, buscando em múltiplas bases científicas internacionais: de 3.568 artigos inicialmente identificados, 7 estudos preencheram todos os critérios metodológicos.
Cinco dos sete estudos analisados encontraram associação entre exposição elevada ao flúor e alterações da função tireoidiana. Os autores concluíram que existe uma possível associação entre exposição crônica elevada ao flúor e alterações da tireoide, mas classificaram a qualidade global das evidências como baixa, ressaltando a necessidade de estudos prospectivos mais robustos.
Estudo 3 — o importante estudo canadense
Um dos estudos mais citados pelos defensores da fluoretação da água foi publicado no Canadá em 2017 por Barberio e colaboradores, com mais de 6.000 participantes, avaliação de TSH e T4 livre, e medição de flúor urinário e na água consumida.
Os autores não encontraram associação significativa entre exposição ao flúor e alterações da função tireoidiana na população estudada. Mas esse resultado merece uma análise cuidadosa: a população canadense apresenta níveis de exposição relativamente baixos comparada a regiões da China e da Índia, onde muitos dos estudos positivos foram realizados; o estudo usou amostras urinárias pontuais, que refletem principalmente exposição recente, não a carga acumulada ao longo de décadas; e não avaliou marcadores de autoimunidade tireoidiana, como anti-TPO e anti-tireoglobulina.
Portanto, ele não responde diretamente à pergunta que mais interessa aos pacientes com Hashimoto: indivíduos com autoimunidade tireoidiana podem ser mais sensíveis aos efeitos do flúor? A resposta permanece desconhecida.
O papel da deficiência de iodo
Estudos mais recentes sugerem que a interação entre flúor e tireoide pode depender do estado nutricional do indivíduo. Pessoas com menor disponibilidade de iodo parecem apresentar maior suscetibilidade aos possíveis efeitos tireoidianos do flúor. Isso faz sentido biologicamente: se um paciente apresenta deficiência de iodo, deficiência de selênio, tireoidite de Hashimoto, inflamação crônica e estresse oxidativo aumentado, qualquer fator que reduza ainda mais a eficiência da utilização do iodo pode potencialmente ter maior impacto clínico.
Onde encontramos flúor no dia a dia?
Muitas pessoas acreditam que a principal fonte seja a pasta de dente. Na realidade, a exposição costuma ser cumulativa. As principais fontes incluem:
- Água fluoretada — principal fonte para grande parte da população
- Cremes dentais — especialmente quando ocorre ingestão frequente
- Enxaguantes bucais — podem contribuir para a carga total de exposição
- Chá preto e chá verde — entre os alimentos naturalmente mais ricos em flúor
- Refrigerantes e bebidas industrializadas — dependendo da água utilizada na fabricação
- Alimentos processados — principalmente os produzidos com água fluoretada
- Peixes consumidos com espinhas — como sardinhas e anchovas
Então devemos evitar completamente o flúor?
Não necessariamente. O flúor possui benefícios bem documentados na prevenção da cárie dentária. Por outro lado, a literatura científica atual sugere que exposições elevadas e prolongadas podem influenciar a fisiologia tireoidiana em determinadas populações.
A questão central talvez não seja a pasta de dente isoladamente. O que a ciência vem investigando é a carga total de exposição ao flúor ao longo da vida e como ela pode interagir com deficiência de iodo, predisposição genética, inflamação crônica e doenças autoimunes.
O que isso significa para quem tem Hashimoto?
Pacientes com Hashimoto frequentemente focam apenas na reposição hormonal. Entretanto, a experiência clínica e a literatura científica mostram que diversos fatores ambientais podem influenciar o comportamento da doença, entre eles: alimentação, saúde intestinal, vitamina D, selênio, ferro, metais tóxicos, sono, estresse e exposição a contaminantes ambientais.
O flúor pode representar mais uma peça desse quebra-cabeça. Não necessariamente a causa da doença, mas um possível fator modulador em indivíduos suscetíveis.
Como avaliar isso na prática
Na abordagem funcional integrativa, o objetivo não é criar medo em torno de uma única substância. O objetivo é avaliar o paciente de forma ampla. Em uma investigação mais completa, podemos considerar: histórico de exposição ambiental, qualidade da água consumida, sintomas persistentes apesar do TSH "normal", presença de Hashimoto e anticorpos elevados, estado nutricional de iodo, selênio, zinco, ferro e vitamina D, e marcadores de inflamação, intestino e estresse oxidativo.
Cada caso precisa ser interpretado individualmente. O que é irrelevante para uma pessoa pode ser importante para outra, dependendo do terreno biológico.
A ciência atual pede equilíbrio, não extremismo
A ciência atual não permite afirmar que a pasta de dente causa Hashimoto ou hipotireoidismo. Por outro lado, também não permite afirmar que o flúor seja completamente irrelevante para a saúde tireoidiana.
As melhores evidências disponíveis sugerem que exposições elevadas ao flúor podem influenciar parâmetros da função tireoidiana, especialmente em indivíduos suscetíveis e em populações com deficiência de iodo. Para pacientes com Hashimoto, a mensagem mais importante é compreender que a saúde da tireoide depende da interação entre genética, imunidade, nutrição e ambiente. E é justamente nessa interação que a medicina integrativa busca atuar.
Na Clínica Dr. André Azevedo, em Campinas/SP, avaliamos Hashimoto e hipotireoidismo de forma ampla, considerando exames, sintomas, histórico clínico, nutrição, intestino, inflamação e exposições ambientais.
Referências científicas
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